Crônicas do Márcio de Ávila Rodrigues:

Zestle Bird, uma história de rejeição e sucesso  
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A história do primeiro Serra Verde
O cavalo, um atleta
Ramiro
A comissão de corridas
O Capenga
Bookmaker e engraxate


Zestle Bird, uma história de rejeição e sucesso

             Em 1997 as corridas do Hipódromo Serra Verde estavam bem engrenadas e o presidente do clube, Antônio Cadar Neto, achou que era a hora de incentivar os proprietários na compra de cavalos. Na época, uma das melhores fontes eram os leilões de animais em treinamento de Cidade Jardim, principalmente o tradicional leilão da véspera do Grande Prêmio São Paulo.

             Primeiro foram estabelecidos os critérios para a compra, como idade, saúde, enturmação, faixa de preço. Os animais que se enquadraram foram a seguir examinados. Mas sobrou pouca coisa naquele leilão. Apenas quatro foram pré-selecionados e dois deles chegaram ao preço correto e foram adquiridos: Zestle Bird e Earthling.

             Zestle Bird era uma maravilha. Belíssimo alazão de cara bem branca, salpicado de pêlos brancos por todo o corpo, parecia um cavalo dos índios apaches, figurante habitual dos filmes de cowboys da Hollywood dos anos 50-60. Pesava entre 450 e 460 quilos. Era criação do então importante Haras Malurica, que usava a seqüência do alfabeto para criar o nome de seus produtos. Em 1993, quando nasceu o Zestle Bird, era a vez da letra “z”. O dono do haras, o genioso e brigão Ricardo Vidigal, fazia uma estranha mistura com os nomes dos pais de cada potro/potranca que nascia e escolhia o nome. Todos os filhos do garanhão americano Johns Treasure (assim mesmo, sem o sinal de apóstrofo), naquele ano, começavam com a palavra Zestle. Difícil de entender onde ele viu a semelhança entre os dois nomes. Como a mãe do potro era a Omare Bird, se explica a origem do estranho nome.

             Ele tinha uma vitória e três segundos lugares em 13 corridas em Cidade Jardim. Como ganhou um páreo considerado fraco, o claiming para perdedores, o proprietário se desinteressou. Levou um baita prejuízo, pois havia pago R$ 13 mil no leilão do Malurica e o revendeu por R$ 2,7 mil.

             Ao chegar ao Serra Verde, uma romaria de interessados se apaixonou pelo cavalo de índio , mas logo começaram a surgir boatos sobre o joelho dele, que tinha uma pequena inchação. Na verdade era uma inflamação pequena, localizada, um acúmulo excessivo de líqüido sinovial, que é o lubrificante das articulações. Na hora do leilão – no dia 17 de maio – o proprietário Reinaldo ficou indeciso, mas deu o maior lance, incentivado pela garantia do presidente Cadar de que o clube aceitaria o cavalo de volta se houvesse um bom motivo.

             O novo treinador, Geraldo Mateus de Andrade, o “Periquito”, reiniciou o treinamento do alazão mas estava preocupado. Ele era famoso pelo zelo com os seus proprietários, principalmente os que ainda não havia conseguido cativar completamente, os que ainda não tinha na mão . Morria de medo de que se desanimassem. Normalmente ele daria mais tempo para o cavalo se adaptar ao Serra Verde (neste caso muda-se o clima, a alimentação e o tipo de treinamento), mas apenas duas semanas depois inscreveu o cavalo para correr e na véspera da prova (dia seis de junho) me pediu para examiná-lo e fez uma revelação surpreendente. Contou que não acreditava na recuperação e estava fazendo treinos fortes pois, se mancasse, o clube teria que indenizar o comprador já que o presidente Cadar havia empenhado a palavra. No mesmo dia telefonei para o presidente e pedi que desfizesse o negócio rapidamente, antes que o cavalo não resistisse a um aparente erro de treinamento e mancasse de verdade.

             Passamos o cavalo para o treinador José Lúcio Teixeira e fiz um tratamento simples no joelho, mais preventivo do que curativo. Antes da estréia – que só viria no final do ano – o proprietário Dagles Motta Magalhães se interessou e o comprou por cinco prestações de quinhentos reais. Ficou com ele até fevereiro de 1999, ganhando seis corridas no Serra Verde e uma no Rio de Janeiro, e o revendeu para mim e para outro proprietário mineiro, Carlos Eduardo Capucio, titular do Stud Carimillo (o nome do stud é uma fusão dos nomes dos seus quatro filhos). Depois disto ganhou mais duas corridas na Gávea e no Serra Verde alcançou a mais memorável de suas performances, um terceiro lugar no Grande Prêmio Minas Gerais.

             Em 1999, a diretoria do Jockey Club de Minas Gerais, presidida pelo engenheiro Harold Alvarenga, marcou para o dia 11 de abril o tradicional Grande Prêmio Minas Gerais, com extração do Sweepstake pela Caixa Econômica Federal. O prêmio era de um automóvel para o dono do cavalo ganhador e eram necessários 12 competidores por causa do regulamento. O Stud Carimillo resolveu participar com Zestle Bird, apesar da expectativa do aparecimento de cavalos muito superiores a ele. Provavelmente foi o cavalo mais intensamente preparado para a prova, pois passou a galopar duas voltas completa na pista (quase 3,5 quilômetros) diariamente e fazia treinos de 2.000 metros toda semana.

             Feitas as inscrições, o nível da prova realmente saiu forte, com pelo menos três cavalos considerados bem superiores a ele: Ingher Amber, Puritan e Guess What. O regulamento previa premiação para os três primeiros colocados; portanto se um deles fracassasse e o alazão corresse bem, já era lucro. Mas havia um problema: não havia nenhum jóquei bom à disposição, pois os melhores já tinham seus compromissos e Zestle Bird era um azarão , não tinha credibilidade. A única opção era o Cristiano Gilberto dos Santos, que teve uma carreira sem expressão e já estava gordinho, passando do peso normal de jóquei. Pelo critério de distribuição de peso, Zestle Bird teria que carregar 56 quilos entre jóquei e encilhamento, mas eu sabia que dificilmente ficaria com menos de 60.

             Ao analisar o campo da prova, concluí que a decisão correta era aceitar a superioridade dos outros cavalos e fazer uma corrida conservadora, mais adequada para obter uma boa colocação do que tentar uma vitória. Precisava considerar também que o páreo estava cheio, tinha 12 competidores e que com o passar do tempo o Zestle Bird se tornou um cavalo manhoso, que às vezes entortava a cabeça durante a prova e reduzia o ritmo. Pesadas e medidas todas as variantes, decidi que ele deveria correr em ritmo mais lento no início da prova, em último ou penúltimo lugar, começar uma aproximação depois da metade do percurso e avançar só na reta final.

             Optei por comunicar ao jóquei como queria que ele corresse somente nos preparativos para montar, no padoque. O Cristiano estava acompanhado pelo pai, Milton Gualberto dos Santos, o principal jóquei do turfe mineiro nas décadas de 70 e 80. Ouviu minhas explicações e aceitou, com total apoio do pai, um reforço de peso para as minhas idéias. E logo depois, como diz a maioria dos locutores de turfe, Foi dada a partida! Zestle Bird fica para último, passa pela primeira vez pelo disco ainda em último (12º lugar), ultrapassa um na reta oposta e outro na última curva. Na reta final, aparece em destaque o favorito, Ingher Amber, seguido por Puritan, que representava proprietários de Pernambuco. E um surpreendente Zestle Bird arranca dos últimos postos para ultrapassar os demais, ganhando o terceiro lugar.

             Foi o grande feito de toda a carreira do cavalo apache. Depois deste páreo, o Ingher Amber ainda ganhou mais cinco corridas na Gávea, incluindo os clássicos Primavera e Taça Cidade Maravilhosa. Mas eu ainda teria duas surpresas. A primeira: o treinador José Lúcio Teixeira acompanhou a pesagem do Cristiano e descobriu que ele estava ainda mais gordinho do que o esperado, pesando 64 quilos e dando boa vantagem a todos os rivais. Dez quilos a mais do que a carga que ficou sobre as costas do próprio Ingher Amber. Mas a surpresa maior apareceu semanas depois, com a confissão do Cristiano de que não ia obedecer a ordem de correr longe dos adversários, em último lugar. É que ele foi prejudicado por outro cavalo após a largada e ficou em último, impedido de dar seqüência aos seus planos secretos de desobediência civil. E quem entende de corridas de cavalos não tem dúvida: com excesso de peso e adversários melhores, se ele corresse mais perto só ia conseguir que o cavalo fizesse muitas manhas e também terminasse cansado e mal colocado.

             Depois desta ótima apresentação, Zestle Bird voltou a correr no Rio de Janeiro onde conseguiu mais duas vitórias, um segundo lugar e três terceiros. No dia 18 de outubro de 1999 ele cumpriu uma de suas melhores performances, tirando o terceiro lugar num páreo forte, em 1.900 metros, mas mancou do joelho direito (o que causou a sua devolução aos três anos foi o esquerdo). Constatada uma pequena fratura – grave para um atleta, insignificante para um cavalo de campo – teve a campanha encerrada e foi doado para um tio do Capucio, fazendeiro em Curvelo. O nome difícil foi carinhosamente simplificado para Zezinho e ele ficou famoso na região pela imponência e beleza, ganhando um harém de éguas dos vizinhos impressionados.

             Zestle Bird encerrou a carreira com 47 apresentações em três hipódromos, transformadas em 10 vitórias, nove segundos lugares, nove terceiros e nove quartos.